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O Papel do médico no mercado atual

Conversando com colegas médicos, nós, já com alguns cabelos brancos surgindo (aqueles que ainda não caíram…) temos visto com espanto algumas mudanças que têm ocorrido. Sim, é óbvio que mudanças no mercado estão acontecendo em movimento acelerado. Também é verdade que muitas destas mudanças trazem benefícios, mesmo quando não gostamos delas. Afinal, mudanças assustam.

Porém, uma coisa é fato: a medicina como nós a conhecemos, como nós estudamos e aprendemos já não existe mais. Há um novo mundo, com novas possibilidades técnicas e tecnológicas. Mas como entender o momento em que passamos? É necessário perceber que passamos por uma mudança drástica, não apenas na medicina, mas na sociedade como um todo, com mudanças nos meios de produção, no modo de consumo, na maneira de se relacionar com os outros. E em meio a esta mudança, somos chamados à reflexão sobre o papel do médico nesta nova sociedade.

Há o desafio tecnológico e a pressão pela tecnicidade da medicina, do profissional médico. Mas será este é o médico que queremos quando nós precisarmos de atendimento?

A tecnologia assusta, pois o tempo que se leva para formar um médico é em torno de uma década de dedicação exclusiva e extenuante. E uma vez formado, o médico hoje se sente perdido e despreparado para enfrentar este novo mercado.

A tecnologia sem dúvida traz benefícios. É através da evolução tecnológica que, soluções novas para problemas antigos surgem. E não somente isto, é através dela que a solução, antes restrita a uma pequena parcela da população, torna-se acessível a todos. Portanto, podemos entender que a revolução tecnológica é sempre boa para o consumidor, pois traz soluções melhores por valores menores.

Outro problema que se agrava frente a esta revolução que vivemos, é o espaço de trabalho do médico. Hoje, temos no Brasil, 2,2 vezes mais médicos por mil habitantes do que a recomendação da OMS, que é de 1/1.000. E com esta revolução tecnológica, a quantidade de médicos necessários torna-se naturalmente menor. Ou seja, o número excedente de médicos torna-se maior ainda.

Porém, a necessidade de profissionais formados com alta qualidade técnica para a execução de tarefas e procedimentos técnicos é cada vez maior. E neste momento, as fronteiras de atuação com as profissões paramédicas vira uma grande zona cinzenta.  E isto é outra coisa que preocupa: a invasão da medicina e a predação de seu espaço de trabalho.

Mas resta a pergunta: Qual o papel do médico neste novo universo? Em minha opinião, o papel do médico continua sendo exatamente o mesmo. A essência da arte médica é o domínio do conhecimento científico e a aplicação prática e individualizada deste conhecimento afim de fazer o maior dos trabalhos do médico: consolar. A cura é o bônus, o prêmio a ser conquistado, quando possível. O tratamento, é nossa meta diária, o esforço contínuo, mesmo quando sabemos não ser possível a cura. E isto fazemos, sem nunca abandonar a busca constante por novos conhecimentos, o questionamento incansável e a aplicação deste suor e lágrimas na fronteira do conhecimento, no incessante esforço em sedar a dor do ente que sofre.

Quando entendemos isto, nos pacificamos. Nosso trabalho não é, nunca foi e nunca deverá ser o trabalho técnico. Este deve ser devidamente delegado àqueles que aprimoram suas habilidades técnicas para a perfeita aplicação do raciocínio clínico, do verdadeiro trabalho médico: o trabalho intelectual. O nobre trabalho de tentar entender o como determinada doença prejudica e faz sofrer meu paciente, e em seu contexto único, tanto social quanto físico, emocional e até espiritual, trazer alívio ao sofrimento daquele que pacientemente aguarda o esforço piedoso de seu médico que se debruça em livros, compara casos, trás a memória casos semelhantes, tenta entender como poderá desta vez trazer consolo e alívio ao seu sofrimento.

Sim, há mudanças, mas de tecnologia. Já o homem, este permanece o mesmo. Com suas angústias e medos, sofrimentos e dores. E é a este homem que sofre, que o médico emprega todo seu esforço e empatia.

Precisamos entender que todas estas mudanças melhoram nossas ferramentas. Já não cortamos madeira com pedras lascadas, mas à laser. Porém, continuamos cortando madeira.

Prof. Dr. Ivan Vargas Rodrigues

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